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1 – Introdução 
2 – Contexto Histórico e Geográfico 
3 – Carvoeiro d’ontem
3.1 Caminhada histórica
3.2 Evolução demográfica
3.3 Cultura popular (costumes e tradições)
3.4 Uma economia de subsistência  
4 – Carvoeiro d’ hoje 
5 – Carvoeiro d’amanhã 
6 – Conclusão 
7 – Bibliografia 
8.- Anexos  
                 Cristina Barbosa
Laércio Antão
               Natércia Antão
 
Ao visitante
 
Chegado a este monte
Olha este povoado:
Tão lindo é o horizonte
Tão rico é o seu passado.
 
Do cabeço até à fonte
Todo ele è engraçado
Foi crescendo pelo monte
Com esforço sublimado.
 
Percorre as ruas estreitinhas,
Passa pelo Linhar
Entra na capelinha,
Recolhe-te, vai meditar!
 
Gostaste do carvoeiro?
Ele é muito hospitaleiro!
 
 
 
1 - Introdução
 
O presente trabalho “Carvoeiro de ontem, de hoje e de amanhã” tem como principal objectivo um estudo aprofundado de como tem evoluído o mundo rural no último meio século, partindo assim  de uma realidade concreta: - a aldeia do Carvoeiro que é, julgamos nós, um exemplo paradigmático dessa evolução.
No nosso trabalho focaremos aspectos relacionados com a demografia, nível de vida, economia e principalmente os costumes e tradições que caracterizam uma identidade rural.
Para tal foi necessário recorrermos a uma metodologia de base. Como a aldeia é “mais uma entre tantas outras”, sem grande importância a nível nacional a procura de bibliografia foi em vão. Não havendo nenhum estudo publicado sobre o Carvoeiro (apenas encontramos no jornal A Comarca de Arganil alguns trabalhos em verso, criados por filhos da aldeia sobre as tradições locais e que transcrevemos ao longo do nosso trabalho), o nosso trabalho surge como pioneiro albergando, assim, uma responsabilidade acrescida.
            Não pretendemos apenas um simples relatório de como tem evoluído esta aldeia, mas sobretudo uma interpretação de uma realidade por nós presenciada.
Assim, o nosso estudo incidiu sobretudo num trabalho de campo, numa investigação no terreno. Como a aldeia conta com um número reduzido de habitantes isto não foi difícil, sendo assim facilitada a nossa conversa com todos (ou quase todos) os habitantes.
Mas para melhor percebermos a dinâmica evolutiva desta aldeia consultámos os censos de 1971/81/91 e o anuário estatístico da região centro; tivemos conversas com o presidente da câmara de Pampilhosa da Serra , o Sr. Hermano Almeida; dada a ausência do presidente da junta de freguesia de Pessegueiro falamos com a secretária, Dª Mª Teresa; tivemos uma longa conversa com o Sr. Manuel da Conceição Neves, que nos pareceu a pessoa que mais sabe acerca do Carvoeiro, pois foi lá que nasceu, e apesar de ter vivido em Lisboa muitos anos, é nesta aldeia que  se sente bem e, foi por amor aquela terra que ele toda a vida tem lutado para defender sempre os direitos de todos os habitantes; visitámos também o museu municipal onde entrámos em contacto com o artesanato e o espólio  etnográfico do concelho.
Após estes dias de convivência rural, a experiência foi muito enriquecedora não só para o objectivo do trabalho, como para a nossa experiência como estudantes de geografia, onde o estudo de campo e a convivência (interpretação) com a paisagem são fundamentais.
Desde já queremos agradecer a disponibilidade e hospitalidade daquela gente que nos recebeu “de braços abertos” e nos deu informações preciosas, sem as quais não seria possível a realização deste trabalho.
Achamos oportuno deixar um obrigado especial para o presidente e para todos os funcionários da câmara municipal que foram incansáveis e apesar de todo o seu trabalho nos deram a sua atenção. A todos, o nosso muito obrigado!
De seguida apresentaremos o desenvolvimento do trabalho mas ficará sempre algo para dizer.  
 
 TOPO
 
 
2 – Contexto Histórico e Geográfico
 
O concelho de Pampilhosa da Serra, ao qual pertence a aldeia de Carvoeiro, faz parte do distrito de Coimbra, tem cerca de 396 km2 de área distribuídos por dez freguesias: Cabril, Dornelas do Zêzere, Fajão, Janeiro de Baixo, Machio, Pampilhosa da Serra, Pessegueiro (na qual se insere Carvoeiro), Portela do Fojo, Unhais-O-Velho e Vidual. (ver anexo I)
Este concelho é o segundo maior do distrito de Coimbra, sendo o único a pertencer à província da Beira Baixa.
A Pampilhosa da Serra faz fronteira a Norte com o concelho de Arganil; a Sul com o concelho de Oleiros; a Nordeste com o concelho da Covilhã; a  Sudeste com o concelho do Fundão; a Noroeste com o concelho de Góis; e Sudoeste com o concelho de Pedrogão Grande.
Situada entre os contrafortes da Serra da Estrela, do Açor e da Lousã, o concelho é todo ele montanhoso, salpicado nos sopés das montanhas por variadas aldeias rurais de tradições e costumes ancestrais. O concelho é atravessado a Norte pelo Rio Ceira, ao Centro pelo Rio Unhais e a Sul pelo Rio Zêzere.
Há quem atribua ao nome de Pampilhosa sinais de vida pastoril, ao remeter a sua origem etimológica à abundância da Pampilhos (malmequeres campestres) nas margens dos rios Ceira, Unhais e Zêzere. O acrescento da Serra foi criado no século XIX para distingui-la de Pampilhosa do Botão na Mealhada.
Este concelho tem origem no período medieval. D.Dinis terá concedido à Pampilhosa o título de vila, mas o foral medieval foi dado por Pessoa Particular. Em 1380 D.Fernando anexou Pampilhosa ao julgado da Covilhã, mas a 10 de Abril de 1423 D.João I confirmou-lhe os privilégios de vila isenta. D. Manuel outorgou-lhe foral novo a 20 de Outubro de 1513.
 
O património construído do concelho apresenta um vasto número de igrejas, capelas, casas antigas, moinhos e lagares, intimamente ligado com à ruralidade económica e social vivida nas aldeias beirãs, das quais Carvoeiro não é excepção. 
  TOPO
 
3 – Carvoeiro d’ontem
3.1. Caminhada histórica
 
Carvoeiro localiza-se no Baixo concelho da Pampilhosa da Serra ( ver anexo I e II ), pertence à freguesia de Pessegueiro, cujo território é limitado a nascente pela Ribeira de Carvalho; a Poente pela Ribeira de Pessegueiro; a Norte pela Serra da Amarela e a Sul pelo Rio Unhais.
A sua fundação perde-se na bruma do tempo não sendo possível determinar uma data certa. No entanto, pelo que nos chegou em termos de memória popular, o seu início poderá apontar para o século XVII.
O seu nome terá surgido pelo facto de ter sido fundada por cinco homens cuja profissão seria fazer carvão ( carvoeiros ), já que na região abundava vegetação que potenciava aquela actividade humana. Com o possível esgotamento da matéria prima que serviu para fazer o carvão, as gerações seguintes, dedicaram-se sobretudo à agricultura, uma agricultura de subsistência.
            As pequenas leiras ( pequeníssima propriedade de onde os Carvoeirenses tiravam o seu sustento ) foram construídas durante os séculos XVIII e XIX através de golpes de energia e de labor intenso dos seus habitantes. De facto, herdeiros de uma paisagem que lhes era adversa foram eles que construiram não só as terras para cultivo, como também quilómetros e quilómetros de levadas que serviram para irrigar os pequenos campos de milho que, assim, foram prosperando e servindo de alimentação à sua população.
            Até à década de cinquenta a aldeia, em termos de infra-estruturas manteve-se parada no tempo: habitações sem condições; sem luz; sem telefone; sem água ao domicílio e sem acessibilidades. Dir-se-ia que era uma comunidade entregue a si própria, sem horizontes que não fossem os da pura sobrevivência. No fundo, a aldeia sofreu, tal como o mundo rural português, o ostracismo imposto pelo regime do Estado Novo.
 
 
            Todavia, a partir da década de 50, sobretudo pela acção da Liga de Melhoramentos do Povo do Carvoeiro, incluída num movimento regionalista mais vasto e único no nosso país, cuja génese remontava a uns anos antes e abrangia não só o concelho de Pampilhosa da Serra, mas também o de Góis e Arganil, fundada a 10 de Maio de 1942, por alguns naturais, nomeadamente Augusto Alves Antão, António Martins, José Maria Neves, Júlio Augusto Brito, Manuel Jacinto Henriques e Albano Antão de Oliveira, que se insurgiram contra o abandono total por parte do poder local e central, foi possível tirar a aldeia desse marasmo ancestral. Assim, em 1950 foi inaugurada a Nova Escola Primária e a aldeia foi ligada à estrada Nacional número 112; em 1958 foi construída a Casa do Convívio; em 1959 a aldeia foi dotada de água para consumo doméstico e de telefone; em 1960 foi electrificada e as suas ruas calcetadas, ficando assim com boas infra-estruturas, considerando o atraso geral do mundo rural desse tempo.    
 
 
  TOPO
 
3.2. Evolução demográfica
Em termos de êxodo rural a aldeia do Carvoeiro pode ser apontada como paradigma do que se tem vindo a passar nesse âmbito, já que as razões evocadas para esse êxodo são também idênticas. Nunes Barata, advogado ilustre e antigo deputado da Assembleia Nacional, aponta como razões desse êxodo a “ ambição de conhecer novos horizontes económicos, culturais e sociais “.
 
Freguesia do Pessegueiro
Lugar do Carvoeiro
1960
1970
1981
1991
111
63
32
26
Fonte: in Jornal Serras da Pampilhosa, Mês de Novembro, 1ª página
 
Assim, conforme o quadro referenciado, em 1960 a aldeia tinha 111 habitantes; em 1970 63; em 1981 32 e em 1991 apenas 26, sendo estes últimos as sua maioria idosos ( com mais de 65 anos ). Foi, pois, a partir da década de sessenta que o seu declínio populacional se tornou inexorável, já que, por um lado a mortalidade aumentou com o envelhecimento da população, e, por outro lado, a emigração em massa sobretudo para Lisboa dos seus naturais levaram aquela situação.
Se tivermos em conta apenas estas variáveis talvez chegássemos à triste conclusão de um eventual desaparecimento da aldeia a médio prazo.
Porém, neste momento, em consequência de três casais jovens que se fixaram nesta aldeia, a natalidade aumentou e poderá inverter este processo, já que actualmente se verifica, um crescimento da população que se cifra em 33 habitantes, dos quais 11 estão na faixa etária dos 20 aos 40 anos; e oito entre os 1 e os 15 anos, sendo os restantes idosos com mais de 65 anos.[1]
Apesar de tudo, segundo Hermano Almeida (presidente da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra) “Carvoeiro é uma aldeia  semi-desabitada” mas que ganha vida nos meses de Verão à semelhança do que acontece no restante concelho em que a população quintuplica, justificando assim o investimento que aí se tem desenvolvido ”.
Por seu lado, o Presidente da Junta da Freguesia de Pessegueiro, Manuel Fernando de Almeida, afirmou ao jornal Serras da Pampilhosa: “ é com grande  nostalgia que vemos as aldeias da freguesia a caminhar para a desertificação, a razão de tal fenómeno deve-se talvez, em grande parte, ao baixo nível económico da populações e à pouca coragem dos nossos governantes, que ao longo de todos estes anos tem sistematicamente esquecido o nosso concelho. Não é pois de estranhar que as gentes deste concelho tenham procurado outras paragens para poderem viver uma vida melhor.”
Se o poder local continuar a investir em infra-estruturas e acessibilidades, como tem vindo a fazer, as actividades económicas ( comércio, pequena indústria, artesanato e turismo cultural e de montanha ) poder-se-ão animar  potenciando postos de trabalho e, por conseguinte, fixar no futuro localmente as poucas crianças existentes, dando assim continuidade à aldeia, que é tema deste trabalho.
 
 TOPO
 
3.3 Cultura Popular (costumes e tradições)
A cultura popular da aldeia insere-se na do próprio concelho e até na de muitas outras aldeias beirãs, sendo rica e diversificada.
Os costumes e tradições apesar de se terem vindo a perder ao longo do tempo, alguns continuam a perdurar devido às memórias dos habitantes da terra que vão lutando para que permaneçam intactas. Das tradições e costumes de Carvoeiro recolhemos as seguintes manifestações profanas:
- As janeiras: no dia 31 de Dezembro de cada ano a juventude da aldeia juntava-se num grupo misto e homogéneo que percorria todas as habitações a pedir as janeiras: ó senhora lá de casa/sentada numa cortiça/ dê lá volta a casa/ dê-me cá uma chouriça. Depois juntavam-se numa casa normalmente desabitada, onde, quais cozinheiros de ocasião, confeccionavam os alimentos angariados banqueteando-se, prolongando a noite até ao dia seguinte.
Veja-se como um autor nascido na própria aldeia, Laércio Antão, descreve as janeiras do seu tempo. 
 
 
As Janeiras
 
                        Antes que surgisse o mês de Janeiro
                        Pedia-se a carne e as chouriças
                        Que, com batatas e hortaliças,
                        Fazia um banquete por inteiro!
 
                        Festa, alegre, feita sem canseiras,
                        Batia mais forte o nosso coração.
                        Grupos de jovens, cozinheiros de ocasião,
                        Festejavam, juntos, as Janeiras!
 
                        Comia-se muito, era uma folia!
                        Cotavam-se histórias d’encantar
                        Ou lendas do antanho, cheias de magia.
 
                        E, assim, se acabava aquele serão
                        Vivido intensamente a sonhar...
                        Com a alma impregnada de emoção!
In jornal A  Comarca de Arganil, nº 9903, 4 de Novembro de 1992
 
 
            - A matança do porco: dadas as dificuldades do quotidiano de todas as gentes do Carvoeiro a criação do porco ou porcos era prioritária para a sua alimentação. Deste modo, todos os habitantes ao longo de variadíssimas gerações criavam anualmente porcos que, por altura de Dezembro-Janeiro de cada ano, faziam a sua matança. Era um evento festivo, já que era pretexto para encontro familiar através de uma abundante ceia confeccionada sobretudo com algumas partes do porco – a cachola. Depois desmanchava-se, dividia-se a sua carne, faziam-se as morcelas e chouriças ( secando-as ao fumo da lareira ) e guardavam-se esses alimentos em locais próprios: a carne nas “ salgadeiras” e as chouriças na banha, que serviam assim de conduto para o resto do ano.
- O mastro: colocava-se perpendicularmente num local próprio um pinheiro sem ramos e, ao longo de várias semanas a juventude masculina ia trazendo ramos verdes e secos que iam juntando em circulo ao redor do pinheiro. Na noite de 23 para 24 de Junho essa lenha era incendiada ardendo em labaredas, e à sua volta os jovens brincavam e saltavam até de madrugada. Depois, antes do nascer do sol, todos se deslocavam até ao Rio Unhais onde eram obrigados a banhar-se nas suas águas frias. O autor mencionado anteriormente descreve esta tradição da seguinte maneira.    
 
O Mastro
 
            Durante alguns meses de Verão
            Juntava-se a lenha ao redor do mastro.
            Para, depois, na noite de São João
            Arder, cintilante, como um astro!
 
            À sua volta, enquanto ardia,
            Saltava-se e ouvia-se cantar.
            Era tal o entusiasmo e a alegria
            Que até os adultos gostavam de dançar...
 
            Donde teria vindo aquela tradição?
            Aquele gosto de ver o mastro a arder
            Que era gerador de tanta emoção?!
 
            Herdada dos Mouros ou dos Monges?
            E para que seria aquela lenha a arder?
            Talvez, para afastar as pestes para longe!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9904, 26 de Novembro de 1992
 
- As desfolhadas e as debulhas: em termos agrícolas o milho representava quase a sobrevivência dos habitantes da aldeia. Este cereal era semeado, sachado e regado várias vezes até à sua maturação. Por volta de finais de Setembro-Outubro as espigas do milho eram apanhadas e transportadas até aos seus locais de recolha.
            Depois em grupos colectivos juntavam-se para desfolhar as espigas e de seguida fazer a sua debulha. Esta, era feita através de artefactos próprios e prolongava-se por longas horas.
            Tanto as desfolhadas como as debulhas eram pretexto para convívio sadio e salutar.
            Durante as desfolhadas, quem encontrasse uma espiga de milho vermelha ( espiga raínha ) tinha de dar um abraço a todos os rapazes/raparigas.
            Veja-se como o mesmo autor aborda estas tradições: 
 
 
As Desfolhadas
 
            Eram tardes e noites esquecidas...
            Aquelas em que se faziam as desfolhadas.
            Desnudavam-se as espigas, apetecidas,
            Feitas de ouro e a prata, debruadas!
 
            Nelas se juntava a nossa gente
            Jovens, adultos e anciãos.
            Contavam-se histórias, alegremente,
            Enquanto se desfolhavam com as mãos.
 
            Momentos calmos que compensavam
            A vida árdua que levavam
            Na sua luta sublime com a terra...
 
            Um sorriso, terno, ao recolher
            O fruto de canseiras – que dizer?
            É, assim, o Homem da Serra!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9871, 3 de setembro de 1992
As Debulhas
 
            Eram tão alegres os serões ao luar
            E, as noites, cálidas, tão divertidas.
            Sentia-se os paus a bater nas espigas
            E ouvia-se os sons dos malhos a malhar!
 
            Geravam corações, ledos em comunhão;
            Inter ajuda, solidariedade, alegria;
            Amizade, ternura, tanta fantasia...
            A um povo, bom, que vivia em união!
 
            Eventos árduos feitos a cantar
            E a contar histórias ancestrais
            Que pareciam coisas lindas de encantar...
 
            Animavam e alegravam os corações
            Cantavam como se fosse em arraiais,
            Era um encanto aqueles serões.
In jornal A Comarca de Arganil, nº9879, 24 de setembro de 1992
 
 
            - As vindimas: a aldeia vivia intensamente a época das vindimas por volta da primeira quinzena de Outubro de cada ano. Normalmente era feita em termos colectivos e de interajuda entre os diversos pequenos proprietários da aldeia, trocava-se o trabalho em vez do pagamento em dinheiro. Dado que abundava aqui a pequena propriedade, em alguns casos pequenissimas leiras, o vinho que se produzia era apenas para consumo local. A festa das vindimas estava intrinsecamente arreigada no imaginário colectivo da aldeia.
             Atestando este facto, veja-se como o autor que vimos citando fala sobre as vindimas que presenciou:
 
 
 
 
As vindimas
 
            Quando as uvas, de tom reluzente,
            Coloridas, doces, já maduras,
            Faziam-se as vindimas, ternamente,
            Numa azáfama cheia de ternuras!
 
            Era um regalo ouvir as cantigas,
            As risadas, ledas, emoções sem par;
            Enquanto os rapazes e as raparigas
            Em diálogo, idílico, pareciam sonhar!...
 
            Cortadas, uma a uma, os cestos enchiam
            E aos ombros do homem p’ras dornas seguiam
            Num trabalho, alegre, cheio de emoção...
 
            Tarefa tão linda, sempre desejada.
            Sempre repetida e sempre encantada
            Que tanto fascinava o coração!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9896, 5 Novembro de 1992
 
 
- A festa do Carneiro: realizava-se pelo Carnaval e era feita exclusivamente pelos alunos da escola que se fantasiavam e, com a ajuda dos pais, ofereciam um carneiro à professora, sendo depois ocasião para a realização de um baile e peças de teatro.
 
Manifestações religiosas:
            - O Bodo: é uma das tradições mais antigas desta aldeia e teria tido inicio a pretexto de uma promessa de um habitante do Carvoeiro ao Sr. do Bonfim, padroeiro da aldeia. O Bodo continua a fazer-se embora perdendo o seu objectivo inicial que era o de compartilharem o pão com os pobres.
            Esta festa é organizada pelos mordomos, sendo os mesmos nomeados anualmente. É normalmente um dia de festa, animando a aldeia e optimizando a solidariedade comunitária.
 
            - As Boas Festas: na Segunda-feira da Pascoela era feita em toda a aldeia a visita Pascal, que consistia na visita domiciliária do Pároco da Freguesia dando a beijar o Menino.
            Este evento de cariz religioso representava muito na religiosidade das gentes da aldeia. Actualmente pela falta de padres deixou há alguns anos de se efectuar.
 
-O toque do sino: sempre que acontecia alguma coisa de anormal na aldeia ( pessoa falecida, incêndios...), o sino ouvia-se em  badaladas sonoras avisando a gente da aldeia para algo que tivesse acontecido.  
            - A festa em honra do padroeiro: Durante várias décadas a festa religiosa em honra do Sr. do Bonfim, realizava-se a 20 de Setembro de cada ano. A partir do inicio da década de 90 a mesma passou a realizar-se no terceiro Sábado de Agosto de cada ano. O seu programa consistia na realização da Eucaristia, a procissão e o leilão de oferendas, cuja receita revertia para os cofres da capela.
            A festa profana consistia nos bailaricos muito concorridos efectuados ao som da guitarra e do harmónio, sendo pretexto para animadas desgarradas.
            Actualmente, estas tradições vão-se perdendo, já que esses instrumentos e esses bailaricos vêm sendo substituídos pelos conjuntos musicais que proliferam por esse Portugal fora.
            Os jogos tradicionais fazem também parte integrante da cultura desta aldeia. Destes destacamos: o jogo da malha e o jogo do pião.
            A gastronomia: dos pratos mais típicos da aldeia destacamos a chanfana de cabrito, o bucho, a tiborna ( que era feita no lagar de azeite ), o arroz doce, a tigelada e as filhós, iguarias normalmente confeccionadas nos dias de festa ( Natal, Páscoa e Festa anual do Padroeiro ).
            Mas, os habitantes da aldeia comiam sobretudo aquilo que produziam: os ovos, as galinhas, os cabritos e os porcos.
            Algumas das tradições da aldeia estão intrinsecamente ligadas ao domínio económico. 
  TOPO
 
3.4. Uma economia de subsistência
 
            O Carvoeiro tem uma economia débil, de pura subsistência que tinha como base a agricultura. Nesta destacava-se a cultura do milho e da batata, a base da alimentação das populações aqui residentes. O milho era uma cultura intensiva e de regadio. Extremamente trabalhosa, já que implicava a sementeira, a sacha, a rega, o desfolhar, a colheita, a debulha e a seca dos grãos ao sol nas tradicionais eiras.
            Por seu lado, a irrigação implicou a construção de levadas algumas com muitos quilómetros, em alguns lugares esculpidas nas rochas e que demonstram bem o trabalho árduo desta gente. Como artefactos utilizados na agricultura destacamos: o arado de ferro que puxado por bois, lavrava as pequenas eiras; o arado de madeira que abria os regos para semear o milho e as batatas; a grade, instrumento de madeira com dentes afiados que servia normalmente para cortar as leivas da terra e aplaná-la para a sementeira; a enchada; o sacho; o ancinho ( artefacto de ferro com dentes ).
            Na recolha que fizemos no jornal A Comarca de Arganil o autor que vimos citando, descreve estes instrumentos do seguinte modo: 
 
 
O arado
 
            Puxado pelos bois, lavrava a terra.
            Mansamente, ia voltando as leivas.
            Era um instrumento querido da Serra
            Porque dele dependiam as sementeiras.
 
            Tarefa grandiosa a do arado
            Que as mãos do homem guiavam com mestria.
            Lavrar a terra era trabalho sagrado
            Feito com amor, zelo e alegria.
 
            Por isso, era momento de festa
            Mesmo sem gozar a sesta
            E com suor a inundar o rosto...
 
            Era trabalho pesado, sem pesar.
            Missão nobilante a executar,
            Porque o homem a fazia com gosto!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9833 4 de junho de 1992
 
  
 
A grade
 
            Instrumento de madeira e afiados dentes
            Era um evento de fabrico artesanal.
            Puxado pelos bois, continuamente,
            Cortava as leiras de forma sempre igual.
 
            Num vai-e-vem muito repetido,
            Deixava a terra pronta a semear.
            Trabalho nobre, árduo e apetecido
            Mesmo executado quase sem parar.
 
            Eram as nossas gentes a executar
            Uma tarefa ancestral de exaltar
            Que dignificava o homem da serra...
 
            Missão gratificante e meritória
            De mãos dadas com a nossa história
            Na sua luta insana com a terra! 
O sacho
 
            Enchada pequena com têmpera cortante,
            Comprado no mercado ou feita no artesão.
            Era um utensílio muito importante
            P’ra sachar o milho, batatas ou feijão.
 
            Tarefa feminina, por excelência.
            Trabalho feito com muita alegria.
            Ranchos executando-o com ardência
            Ao som de cantigas – que leda sinfonia!
 
            Poema bucólico escrito com suor,
            Com a música pautada no ardor,
            Esculpido num livro muito apetecido...
 
            Livro assinado pela nossa gente,
            Pelas mulheres que amam e sentem,
            Mas compêndio que nunca foi lido!...
  
 
 
O ancinho
 
            De dentes afiados em forma de pente
            Que as mãos do homem manejavam com mestria.
            Cavava e esmiuçava a terra, manualmente,
            Nas leiras onde o arado não cabia.
 
            Com o Astro-Rei a jorrar calor
            E a dura terra difícil de virar.
            Era um trabalho cansativo, mas de valor
            Esta missão, extenuante, da terra cavar.
 
            Ai, tanto esforço p’ra tão escasso pão!
            Ai, tanta luta e tanta desilusão
            E a lei da vida sempre tão desigual!...
 
            A uns dava tudo quase sem trabalho;
            A outros apenas suor e nenhum agasalho
            Porque parentes pobres deste Portugal!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9839,9865 e 9850 de 1992
 
            O transporte dos produtos agrícolas dos locais de produção para a aldeia eram feitos através do tradicional carro de bois. Veja-se como o mesmo autor fala desta situação: 
 
 
 
O carro de bois
 
            Duas rodas, o tampo e a tiradeira
            À qual os bois, fortes, se prendiam.
            Puxavam-no, com ardor, pela ladeira,
            Em esforço insano e mútuo se uniam.
 
            O animal e o homem lado a lado,
            Em luta paralela plena de ardor.
            Foi, assim, o quotidiano do passado
            Nesta Serra agreste, mas cheia d’amor!
 
            Era um enlevo ouvir o carro a sibilar,
            Entoando sinfonias lindas de encantar,
            Transportando os produtos da terra...
 
            Pareciam sons divinos e melódicos,
            Prenhes de magia, ledos e bucólicos,
            Que tanto se identificavam com a serra!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9899, 12 de Novembro de 1992
 
            A moagem dos cereais e a azeitona era feita em moinhos de água normalmente colectivos e no lagar este, único para toda a aldeia.
            Existiam também fornos colectivos onde a população cozia a broa de milho, base da sua alimentação.
            Paralelamente, existiam outras actividades económicas que serviam de complemento da agricultura, nomeadamente a pastorícia ( rebanhos de cabras e ovelhas) e o aproveitamento da floresta ( o pinheiro que produzia a madeira e a resina ) e que teve alguma relevância económica na aldeia; a vinha, a aguardente de medronho, a produção de azeite e de mel.
            Embora a matriz económica desta aldeia assente naquilo que descrevemos existiam algumas profissões tradicionais, nomeadamente um carpinteiro ( Manuel Roque); dois pedreiros ( Manuel e António Martins );  um sapateiro ( do qual apenas apuramos que se chamava Manuel ); um ferreiro ( José Lopes ) e um alfaiate ( Manuel Neves ). Existiu ainda na primeira metade deste século o Barbeiro, de nome Alberto Magno de Oliveira, uma figura que ainda hoje resiste á memória do tempo, tantos foram os serviços por ele prestados no âmbito da medicina tradicional numa altura em que os médicos praticamente eram inexistentes em todo o concelho.
            Segundo apurámos foi um homem letrado da aldeia e durante décadas correspondente do jornal a Comarca de Arganil que temos vindo a  citar ao longo deste  trabalho.
            Foi um verdadeiro “João semana” já que segundo nos contaram o Barbeiro em causa prestava muitas vezes o seu serviço sem qualquer recompensa económica.
            Houve também na aldeia um negociante de gado, homem que fez história e liderou em muitas ocasiões as questões colectivas da comunidade. Chamou-se Francisco Antão.
            Recentemente, por iniciativa da Comissão de Melhoramentos local, presidida pelo Sr. Nuno Ramos, foi feita a toponímia das ruas da aldeia, com alguns destes nomes que marcaram a sua história. ( ver anexo II)
 
  TOPO
 
4 – Carvoeiro de hoje
 
Como já foi demonstrado quando tratámos a demografia da aldeia, estes últimos 40 anos transformaram quase radicalmente a vivência diária de outrora. Assim, o êxodo que se processou em direcção ao litoral teve como consequência o abandono das terras de cultivo, estando hoje muitas delas irreconhecíveis, existindo as silvas onde no antenho floresceu o milho. As antigas casas de despejo estão em escombros, as adegas abandonadas, os artefactos agrícolas enferrujados ou desaparecidos. Já não se ouvem os carros de bois, nem se vêem na paisagem os rebanhos de caprinos e ovinos.
            Os actuais habitantes cultivam apenas os pequenos quintais junto da povoação onde produzem algumas batatas e hortaliças. A povoação continua ainda rodeada de oliveiras das quais anualmente são apanhadas as azeitonas e transformadas em azeite. No entanto, essa transformação é já feita em lagares industriais situados fora da zona geográfica da aldeia ( Lousã ou Castanheira de Pêra ), pois o lagar tradicional há muito foi abandonado. Também os moinhos de água e os fornos colectivos estão já em escombros.
Veja-se a forma como o mesmo autor retracta estas infra estruturas hoje em abandono:
 
O lagar
 
            Era um lugar fraterno – o do lagar
            Que no Inverno a luz nos acendia.
            Do seu rodar contínuo, sem parar
            Alimento e vida dele surgia...
 
            Tarefa infinita e divinal
            Empreendida com amor acrisolado.
            Dela brotava o azeite – qual cristal,
            Raio de luz, diamante imaculado.
 
            Em certas noites surgiam as “tibornas”
            E a fornalha tornava as manhãs mornas,
            Era transcendente a sua acção...
 
            Que, vivida pelo povo, intensamente,
            Dela tirava o provento, alegremente,
            E lhe enchia de amizade o coração!
 
 
 
 
 
O moinho
 
            Rodopiavas, incessante, sem parar
            Alimentado pela água da Ribeira.
            No teu rodar contínuo, sem cessar
            Moías o milho seco na Eira.
 
            Do teu esforço insano nascia a farinha
            Que, amassada pelo homem, era o seu pão.
            Era um trabalho divino feito com carinho
            Que à nossa gente retemperava o coração.
 
            Passou o tempo, estás abandonado.
            Já não tens portas nem telhado,
            Apenas a tua mó ali perdura...
 
            Os homens fugiram, deixaram-te sozinho,
            Sentes-te um objecto inválido, velhinho,
            Vives triste, envolto em amargura!...
 
 
 
 
O Forno
 
            Aquecido pela nossa mão
            Com a lenha do pinheiro.
            Aqui se cozia o pão
            Que se comia à lareira.
 
            Era o local por excelência
            Onde muita gente vinha.
            Lugar de boa vivência
            Que tanta importância tinha.
 
            Mudaram-se os tempos, tudo se acabou.
            Já não há gente onde gente morou
E o forno está, agora, destelhado...
 
            É tão triste ter sido na vida alguém.
            Ter sido útil e importante, também,
E ver-se, agora, só, abandonado!
In jornal A Comarca de Lisboa, nº 9824, 9821 e 9830 de 1992
 
 
 
A escola fechou em 1968 por falta de alunos e a floresta foi dizimada pelos fogos florestais.
            Paradoxalmente, os habitantes a residir na aldeia têm hoje uma melhor qualidade de vida em consequência de reformas sociais ( os mais idosos) e de maior facilidade de emprego ( construção civil e outras actividades ) dos mais jovens,
            Em termos de infra-estruturas colectivas a aldeia tem hoje quase tudo dentro do mínimo exigido: ruas asfaltadas, luz eléctrica, água ao domicilio, casa de convívio ( onde as gentes da aldeia se reúnem em amenas cavaqueiras ), telefone, entre outras.
            As pessoas que deixaram a aldeia nas décadas de 50/60 e 70 tiveram quase todas um grande êxito profissional, havendo mesmo muitas delas detentoras de autênticas fortunas. Deste modo, aliando o poder económico ao amor acrisolado que nutrem pela sua terra natal, o Carvoeiro tem hoje lindas vivendas que vão tendo vida, sobretudo na época de Verão, Natal, Páscoa e, também, em muitos fins de semana prolongados que são aproveitados para a sua deslocação de Lisboa à aldeia, já que hoje as acessibilidades são de razoável qualidade.
            Mas a modernidade não trouxe somente o abandono das actividades tradicionais, do património e artefactos que as sustentavam, trouxe também novos comportamentos e novas atitudes em relação ao colectivo da aldeia.
            Pelo que nos foi possível auscultar a solidariedade colectiva não é já tão sadia e fraterna como no antenho.
            Hoje a aldeia vai-se debatendo com o perigo inexorável da perda de identidade ligada às suas antigas tradições e costumes. Os Media também aqui já vão fazendo as suas mossas, a informação vai chegando e os costumes alterando.
            Tradições como a matança do porco, as janeiras, o mastro, as vindimas ou as debulhas de que fizemos referência, são hoje pouco mais do que “coisas” esquecidas no tempo.
 
  TOPO
 
5 – Carvoeiro de amanhã
 
            O Carvoeiro do futuro será necessariamente herdeiro do Carvoeiro do presente. São, portanto, os Carvoeirenses de hoje que influenciarão aquilo que a sua aldeia virá a ser no futuro.
            O ciclo da agricultura que prevaleceu até à década de 70 estará irremediavelmente condenado.
            A sua população actual ( com um ligeiro rejuvenescimento ) poderá  indiciar um revigoramento na sua estrutura. No entanto, essa ideia poderá não ser tão linear, uma vez que a sua fixação futura poderá depender daquilo que a aldeia e o concelho lhes proporcionar a nível de emprego e qualidade de vida.
            O amanhã risonho desta aldeia serrana não deverá passar pelas actividades tradicionais que ao longo dos últimos dois séculos marcaram o viver das suas gentes. A história dos homens é mutável e a mudança é inexorável. Por isso pensamos que o futuro demográfico, económico e social passará por outros actividades profissionais, nomeadamente pelo emprego a tempo certo na sede do concelho em instituições públicas ou privadas, pela ocupação de alguma mão-de-obra na construção civil ( construção de habitações na aldeia ou fora delas ); pelo possível desenvolvimento do turismo cultural, que por seu lado poderá potenciar o incremento da apicultura, de produtos artesanais ( ex, a aguardente de medronho ) produtos que poderão ter uma qualidade acima da média e serem por isso rentáveis.
            Paralelamente, poderá ser posto em marcha projectos de reflorestação que poderão ser uma mais valia económica para esse futuro.
            Será preciso também trazer para essa actualidade as tradições que se perderam, construindo o projecto já elaborado da reconstrução da antiga escola (ver anexo III), para nela ser criado um museu etnográfico cujo embrião existe actualmente na casa de convívio ( ver anexo IV), a ser incorporado num futuro roteiro turístico cultural: museu concelhio - museu de Carvoeiro, o Museu de Carvalho, o Museu Nunes Pereira de Fajão e possivelmente outros, que viriam a dar vida e alguma prosperidade à aldeia.
Acrescente-se a possível corporação em futuros projectos mútuos com a aldeia vizinha de Carvalho e cuja geminação recente atesta essa vontade ( ver anexo V ).
Assim, com a congregação do actual dinamismo autárquico e das actuantes gentes  da aldeia o seu futuro poderá ser radioso e próspero.
 
 
  TOPO
 
 
6 – Conclusão
 
            Pelo que ficou exposto pode-se concluir que a aldeia de Carvoeiro em termos de êxodo rural e abandono de actividades tradicionais é paradigmática daquilo que se passou a partir da década de 50 no mundo rural português: a transferência imparável das populações do inteior em direcção às grandes cidades do litoral, sobretudo Lisboa, Porto e Coimbra.
            Pelo contacto directo que tivemos com os seus actuais habitantes e com os autarcas do concelho é possível avançarmos com as seguintes ideias:
            Que as actuais actividades económicas não são já a tradicional agricultura ou a exploração da floresta, mas as reformas sociais para os mais idosos ou alguns empregos na construção civil. Apesar de tudo, e por paradoxal que pareça, a qualidade de vida das suas gentes será  eventualmente melhor do que as que os antecederam.
A população foi envelhecendo, a agricultura deixou de ter mão-de-obra e passou a ser apenas de subsistência ou simples divertimento. Os costumes e tradições revitalizam-se nos meses de Verão quando estão presentes os i(e)migrantes, filhos da terra, trazendo as novas gerações.
Actualmente a aldeia tem todo um conjunto de infraestruturas básicas como a água, luz, saneamento básico, estradas que se devem principalmente, às acções da Comissão de Melhoramentos do Carvoeiro.
Toda a evolução da aldeia está intimamente ligada à própria evolução do concelho porque não se trata de um sistema isolado.
Para um Carvoeiro de amanhã as opiniões dos seus habitantes não são muito positivas apesar de acreditarem e terem confiança das acções da Comissão de Melhoramentos que tem uma direcção muito jovem e que envolve muitos  jovens filhos de emigrantes desta terra.
 
 
São apontados problemas como a falta de sinceridade, de solidariedade entre as pessoas que à primeira vista seriam apontadas como características da  vivência urbana; a falta de boas vias de comunicação que são fundamentais para poder atrair mais pessoas, atrair a juventude através da realização de actividades desportivas, de actividades em contacto com a natureza que tem muito para oferecer... Um outro aspecto foi o facto da falta de assistência médica ter sido pouco salientada (por alguns nem foi referida) facto talvez explicado pela proximidade a Coimbra ou recorrência às especialidades médicas em Lisboa.
 
“O que falta é conservar o que há, porque o necessário já está feito”
Sr. Samarra
 
O futuro não é muito risonho, apesar de haver infra-estruturas. A aldeia acabar ? Talvez não acabe, o problema é que não evolui.”
Sr.ª Mª Teresa, secretária do presidente da junta do Pessegueiro
 
De facto é uma aldeia que não foge à regra das restantes aldeias beirãs e, tal, como elas tem visto a sua população a decrescer no sentido da desertificação. Mas têm sido tomadas medidas para combater esta triste realidade através da acção conjunta entre a junta de freguesia e  as comissões de melhoramentos.
Um aspecto que achamos interessante  é o amor que os oriundos desta aldeia têm por ela. No Verão, principalmente no mês de Agosto, a  população quintuplica e há um enorme espírito de camaradagem entre eles. Todos ajudam para que as tradições antigas não acabem, todos colaboram em nome de uma comunidade. Algo que se tem vindo a perder entre os habitantes que vivem permanentemente na aldeia. O problema é que não é de um mês que vive um ano!
A Comissão de Melhoramentos tem actuado para não deixar acabar esta aldeia e para retomar as suas principais tradições. Mas, para isso, é necessário o apoio de todos os habitantes, e que as pessoas se unam em torno de uma causa comum que só traz vantagens para todos, mesmo aos forasteiros, porque impede a desertificação total da aldeia  e o desaparecimento de costumes e tradições que não fazem parte apenas de uma cultura local mas também nacional.
É fundamental, nos dias de hoje, criar novas oportunidades para as áreas rurais, desenvolvendo a agricultura (ex, caprinicultura...), protegendo e utilizando o património natural e cultural e o próprio desenvolvimento de actividades não agrícolas exemplo do parque industrial, os serviços e o turismo  que se realizaram a nível de um concelho o que reflectirá certamente na dinâmica da aldeia do Carvoeiro.
A actual situação demográfica indicia um rejuvenescimento que poderá potenciar a não desertificação da aldeia a longo prazo. Simultaneamente as actuais infra-estruturas da aldeia que garantem já alguma qualidade de vida, juntamente com o dinamismo das sua populações , os projectos já em embrião e as perspectivas de desenvolvimento turístico do concelho, poderão ser instrumentos e uma mais valia para a sua prosperidade.
  TOPO
7 – Biografia
VICENTE, António dos Santos, (1995), Vida e Tradições nas aldeias Serranas
                                                            Da Beira;
 
MACHADO, António Lopes, (1994), Crónicas Regionalistas, Região de Arganil ;
 
BARATA, Carlos; Gaspar, Filomena (1994), Levantamento Arqueológico do
                                                            Concelho de Pampilhosa da Serra;
 
Carvalho e as suas Gentes, (1991), núcleo da casa-museu, da Liga de
Melhoramentos de Carvalho;
 
História do Regionalismo Pampilhosense, 50º aniversário: 1941-1991, Edição Casa do concelho de Pampilhosa da Serra 1991, coordenação e redacção do Dr. António Lourenço;
 
Comissão de coordenação da Região Centro, Gabinete de apoio técnico de       Arganil, Informação Urbanística de base, volume IV;
 
Plano Director Municipal de Pampilhosa da Serra;
Jornal A Comarca de Arganil;
Jornal Serras da Pampilhosa, nº17, Novembro 2000, publicação mensal.
Censos de 1971,81 e 91.
 
Anexos
 
Pampilhosa da Serra
Área: 396.5 km2
População residente em 1991 - 5797 hab
                                            1998 – 4510
Nº de freguesias: 10 freguesias
Área média das freguesias: 39.6 km2
Densidade Populacional: 11.4 hab/km2
 
 
Crendices e superstições
Unheiro – inflamação unhas
Passa-se uma aliança de ouro por cima da vista três vezes, ao terceiro dia a está boa.
 
Espinhela caída – dores de costas
Se esta espinhela por arte do Diabo nesta pessoa (nome da pessoa) caída em nome de Jesus seja erguida se esta espinhela por arte do Diabo foi tombada por Santíssimo nome de Jesus seja levantada.
 
A pessoa deve estar sentada num banco baixo de pés juntos, deixando cair os braços e a pessoa que faz a reza fica por traz pegando nos pulsos e levantando os braços do doente, se os dedos das mãos baterem certo a espinhela não está caída, se não faz-se a reza e voltam a levantar-se.
Repete-se durante três dias.
 
Erzipela – perna vermelha e inchada tromboflubite.
 Sempre verde bem aventurada na Sepultura Deus criada, nasceu e foi semeado aceita a Virgem Nossa Senhora mais São João curar esta erzipela e este erzipelão, São Silvestre cura esta erzipela para que tudo o que eu fizer tudo preste.
Enquanto se dizem estas palavras passa-se por cima flores de sabugeiro.
 
Para espantar a trovoada
São Gregório se levantou, seu sapatinho calçou pelo caminho adiante andou, encontrou Nossa Senhora e esta lhe perguntou: para onde vais São Gregório?
“Vou derramar estas trovoadas que por cima de nós andam armadas”.
Derramas bem derramadinhas para que não hoje estragues caminhos, por onde não haja mulheres nem meninos, nem cabras com cabritinhos, nem vacas com bezerrinhos, nem.na eira nem beira nem coisa que Deus queira se não o olho de uma figueira brava.
 
Cabrita – vista inflamada
Com um crucifixo em frente à vista doente diz-se as seguintes palavras ao mesmo tempo que se vai fazendo uma cruz, tantas vezes quanto durar o tempo de dizer as palavras.
Em nome de Deus e da Virgem Maria, milagrosa Santa Luzia, eu te benzo para Santa milagrosa te sare, se fores cabrita valha-te Santa Rita, se fores serpão valha-te São João, se fores unheiro valha-te Deus verdadeiro, eu te curo e eu te benzo para que Deus te atalhe para que não cresças nem reverdesças pelas cinco chagas do Nosso Senhor Jesus Cristo.
Esta reza repete-se por três dias seguidos.
 
Cobrante – mau olhado
Sobre a cabeça dizem-se as seguintes palavras:
Deus te criou e Deus te gerou
Deus te livre de má sombra que assombrou
Assim como Deus nasceu em Belém
Eu te curo cobrante e olhado
Que nesta pessoa (diz-se o nome da pessoa) foi deitado.
 
 
Quadras populares
No lugar do Carvoeiro
Encontras quem te quer bem
È o Senhor do Bonfim
Que não quer mal a ninguém
 
Ò lugar do Carvoeiro
De pequenino tens graça
Tem um povo hospitaleiro
Que acolhe por quem lá passa
 
Ò lugar do Carvoeiro
Tens ladeiras a subir
Quem lá vai levar amores
Vai ao céu e torna a vir
 
Ò lugar do Carvoeiro
Tens no cimo um Loureiro
Quem lá vai levar amores
Tem de ter o pé ligeiro
 
Ò lugar do Carvoeiro
É uma terra altareira
Verdejante e florida
Tens a teus pés a ribeira
 
Marcha popular
O Carvoeiro terra linda abençoada
Eu trago-te guardada
dentro do meu coração
Terra formosa desta pátria tão ditosa
Quem és tu ò Carvoeiro?
És o jardim mais belo de Portugal
 
A tua gente te ama
E sente como ninguém
Sabe cantar sabe rezar
Porque alma tem
Na dura serra
Cariando a terra
Cá ganha a vida
 
 TOPO

[1 Sondagem realizada no dia 24 de Novembro de 2000, pelas 17h a todas as pessoas da aldeia.